COMUNICADO - LETRAMENTO RACIAL: O RACISMO PRESENTE NA SALA DE AULA DO INSTITUTO FEDERAL (IFSP)
LETRAMENTO RACIAL: O RACISMO PRESENTE NA SALA DE AULA DO INSTITUTO FEDERAL (IFSP)
“A Tia Nastácia é Pancada? Ela precisa aprender a lidar com o SUAP (Sistema Unificado de Administração Pública)”
Ao ouvir uma mulher negra ser referenciada como “Tia Nastácia” pode parecer engraçado para algumas
pessoas; de imediato quem é da geração que leu e assistiu Monteiro Lobato (1882 - 1948 - obra referenciada - O
Sítio do Picapau Amarelo), pode até rir. Entretanto, como Lélia Gonzalez nos ensina, o racismo é sofisticado, e
se reinventa! "Tia Nastácia" na realidade evoca um estereótipo histórico e subalternizado de mulheres negras,
ainda que munida de saberes, sua figura icônica foi formada por uma marca racista do início do século XX.
Tia Nastácia é a responsável pelos trabalhos domésticos (cozinhar, limpar, cuidar), e foi peça chave de
uma geração para fortalecer o imaginário simbólico de que as mulheres negras são destinadas ao limite das
práticas privadas do serviço doméstico, sem o mesmo prestígio dado à outra personagem branca da obra, por
exemplo, a Dona Benta.
Trata-se da ‘inumanização’ de nossos corpos, a animalização de nossa humanidade, esse processo é fruto
de um sistema escolar marcado por um discurso biológico, dominador e estereotipado na construção da identidade
negra, que sofreu um ‘apagão’ no seu processo histórico, marcado por um discurso colonialista branco europeu. A
instituição escolar é um dos espaços da sociedade em que as representações negativas dos negros são difundidas,
contribuindo para o processo de reprodução e existência do racismo nesta e no universo social, ao contrário da
promoção do acesso aos espaços de reconhecimento social e de inclusão (GONÇALVES, 2023).
Outro ponto que chama a atenção é que para Tia Nastácia sobram os adjetivos racistas e desumanizantes,
como "negra beiçuda", "macaca de carvão" e "carne preta", ainda que ela tenha sido uma força na obra do Sítio
do Picapau Amarelo, o registro e a memória é de uma figura que sofria racismo. Além da associação com o
termo, "Negra de Estimação", que reforça o racismo em torno da posse, um conceito comum no período
escravocrata e ainda muito presente nos dias de hoje.
Cabe dizer também da ligação com a "Preta Velha", reforçado no chamamento de "tia", imagem
simbólica de uma serviçal que vive para servir a uma família branca, da qual efetivamente ela não é pertencente.
Nomear uma professora Doutora de “Tia Anastácia” é associá-la a uma subalternidade e invisibilidade. É
um crime de racismo, estruturado num ato de racismo recreativo, no qual, minimiza a dignidade da mulher negra,
reduzindo-a uma servidora, sem voz e que inclusive aceita maus-tratos. Usar o nome de tia Nastácia atualmente,
perpetua a imagem da mulher negra num estereótipo da servidão e anula sua autoridade intelectual e o status
conquistado por ela.
A referência produz uma deslegitimação acadêmica, pois o agressor tenta localizar a mulher de volta para
um papel histórico da servidão e de um lugar de não pertencimento, negando um outro e um novo lugar de Saber.
Além de promover uma infantilização, ridicularizar e desrespeitar, com o uso de "Tia" (muito comum para
designar domésticas e babás no Brasil escravocrata e pós-abolição), e associar a aparência física a uma
personagem historicamente humilhada na literatura.
Um estudante dizer que “Tia Anastácia tem que aprender sobre o SUAP” traz representações
depreciativas, e se caracteriza como um crime de injúria racial o que demonstra a necessidade urgente de
Letramento Racial e de luta pelo fim do racismo como um caminho árduo e ser percorrido.
O racismo não é apenas uma "opinião" ou um "desentendimento", mas uma estrutura de opressão que se
manifesta por meio de crimes previstos na Lei n.o 7.716/1989 e no Código Penal (Art. 140, § 3o). A legislação
brasileira, com a Lei Caó (Lei 7.716/89) e o Estatuto da Igualdade Racial (Lei 12.288/2010), busca garantir a
igualdade e combater a intolerância. Atitudes que desumanizam, inferiorizam ou atacam pessoas com base em sua
raça, cor ou etnia são inaceitáveis em uma sociedade que se pretende democrática e, sobretudo, dentro de um
espaço educativo como o Instituto Federal.
Ademais, o crime de racismo promovido pelos estudantes também se associou a narrativas misóginas e
etaristas, expondo o corpo de uma docente negra mulher e adulta com falas agressivas e preconceituosas.
Repudiamos todo CRIME DE RACISMO e outras violências!!
Referências
GOUVÊA, Maria Cristina Soares de. Imagens do negro na literatura infantil brasileira: uma análise historiográfica.
Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 31, n. 1, p. 77-89, jan./abr. 2005.
GONZALEZ, Lelia. Racismo e sexismo na cultura brasileira. In: HOLLANDA, Heloisa B. (org).
Interseccionalidades: pioneiras no feminismo brasileiro. Rio de Janeiro: Bazar do tempo, 2019.
GONÇALVES, Rosangela Cristina. Mulher Negra: das lutas pela (in)visibilidade no passado à visibilidade no presente
- uma autobiografia. In: Educação antirracista: infância, resistência e combagte ao racismo. Solange Elizabeth P da
Silva, Claudia Garcia Costa, Ana Paula Galante Martinhago (Orgs.) Campinas: Apparte, 2022.
__________________________. Nossas narrativas negras: memórias, identidade e educação. Campinas, 2023. (Tese
de Doutorado) Faculdade de Educação, Universidade de Campinas.
LOBATO, Monteiro. Caçadas de Pedrinho. 18. ed. São Paulo: Brasiliense, 1947. LOBATO,
Monteiro. Histórias de Tia Nastácia. 32 ed. São Paulo: Brasiliense, 2002.
SCARAVONATTI, Gihane. “Boneca de pano é gente/sabugo de milho é gente”; e Tia Nastácia, seria gente? A
disputa em torno da personagem lobatiana a partir de sua inserção nos acervos do Programa Nacional Biblioteca
da Escola. Dissertação (Mestrado em Letras) – Universidade Federal do Tocantins, Campus Universitário de
Araguaína, 2015.
05/05/2026
*Esse texto foi produzido a partir de atos racistas, misóginos e etaristas de estudantes do Ensino Médio Integrado do IFSP,
contra uma docente negra*
Assinam:
Rosângela Cristina Gonçalves - Docente campus Salto
Williana Ângelo Silva - Assistente Social campus Salto
Cathia Alves - Docente campus Salto
APOIO:
IFSP Campus Salto
Coletivo ColoreAfro - IFSP/Salto
NEABI - IFSP
SINASEFE - IFSP - Coordenação de Políticas Étnico-Raciais



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